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Entre Palavras e Patas

Entre Palavras e Patas: ideias que me acordam de madrugada, pensamentos no trânsito e observações que não saem da cabeça. Histórias tortas, café, reflexões e um gato que manda nisto. Bem-vindo!

11
Nov25

O meu cérebro é um enorme espaço escuro


In.pata

O meu cérebro é um enorme espaço escuro — e durante muito tempo achei que eram todos assim.

Achei que todos estavam a exagerar quando diziam que as personagens do filme não eram como as tinham imaginado — afinal, elas conseguiam mesmo visualizar a pessoa enquanto liam.

Algumas pessoas — a grande maioria, pelo que percebi — conseguem criar o filme na cabeça, imaginar aquilo que estão a ler; enquanto eu apenas ouço a narração, elas veem a mesa do banquete, a expressão da personagem, o espaço que a rodeia.

Isto a que me refiro — a incapacidade de ter uma imagem na mente, às vezes algo tão simples como o rosto de alguém com quem se convive — tem um nome: afantasia.

O nome é bonito; a vida… tem menos fantasia.

Querem saber se também têm afantasia?
Um teste simples passa por imaginar um limão numa mesa.

Se forem como eu, conseguem pensar no limão e na mesa, mas apenas como ideias.
Não vai haver uma imagem a acompanhar, apesar de poderem dizer que o limão é amarelo e a mesa branca.

O que acontece é que o cérebro usa as áreas ligadas à memória e à linguagem, mas não ativa as responsáveis por criar as imagens mentais.

Essas áreas ainda funcionam — ajudam-nos a reconhecer rostos, orientar-nos e ler expressões.

É como um projetor de cinema que funciona na perfeição, mas cuja lâmpada fundiu.
O mecanismo trabalha; a imagem é que nunca chega ao ecrã.

Talvez por isso goste tanto de Jane Austen, Sally Rooney e Sigrid Nunez, bem como de livros de investigação.

Por ver o mundo através das palavras — e não de imagens.

06
Nov25

O prazer do limite


In.pata

Gosto de viver no limite — não o físico, mas o intelectual.
Como a criança que obedece à letra ao “não ponhas um pé fora de casa” e coloca tudo menos os pés do lado de fora.

Viver no limite, para mim, é isso: entrar nessas zonas cinzentas onde ética, linguagem, contexto e emoção se entrelaçam. Onde o pensamento fora da caixa é valorizado, em vez de reprimido.

Sempre admirei pessoas capazes de contornar as adversidades de forma criativa, porque nem tudo é preto ou branco. Há várias zonas cinzentas — e a vida adulta, muitas vezes, obriga-nos a caminhar por elas.

Talvez por isso goste tanto de vídeos que mostram maneiras inteligentes de dizer coisas não tão positivas, como melhora o teu arcabouço lexical ou um esquadrão de cavalaria à desfilada na tua cabeça não esbarra contra uma ideia.

O que acho mais difícil de perceber é porque, quando crianças, nos podam esta capacidade em vez de a incentivar. Fazem com que ela quase desapareça e depois, em adultos, esperam que renasça — qual fénix. Querem que busquemos soluções criativas, mas depois de anos a bloqueá-la, é difícil recuperá-la.

No fundo, gosto dessa tensão.
Gosto de olhar o perigo de frente — mas só no plano intelectual.

Porque a vida é um jogo.
E nem sempre podemos falar ou fazer tudo.

29
Out25

Podemos trabalhar muito, mas não perdemos a graça


In.pata

Portugal é um dos países mais engraçados do mundo, perde apenas para a República Checa.
Não sei bem se isto é motivo para celebrar, mas ganhámos alguma coisa. Essas coisas são sempre motivo de orgulho, mesmo quando nem são assim tão boas.

Num estudo feito com 30 países, os primeiros lugares ficaram para a República Checa, Portugal, Irlanda, Chile e Grécia.
Se olharmos para os tipos de humor avaliados, é fácil perceber porque ficámos tão bem classificados.

As perguntas focavam-se em quatro estilos de humor:

🐾 o relacional, aquele que aproxima as pessoas, fácil de partilhar;

🐾 o de autovalorização, o que nos permite manter o otimismo;

🐾 o autodepreciativo, quando gozamos connosco;

🐾 e o agressivo, aquele sarcasmo que, admitamos, tanto adoramos.

Portugal ficou em 3.º lugar no humor relacional e em 5.º no agressivo — nada de surpreendente, segundo o estudo, tendo em conta a nossa reputação de inteligência emocional e a rapidez com que soltamos uma piada.
Tão natural que às vezes nem nos apercebemos que a fizemos até alguém se rir.

Em contrapartida, num estudo sobre o equilíbrio entre trabalho e vida pessoal, Portugal teve 54 pontos em 100 e ficou em 8.º entre 22 países.

Não se pode ser bom em tudo.
Às vezes é preciso deixar os outros ganharem — até porque nada melhor que o trabalho para nos fazer soltar aquele sarcasmo tão característico.

23
Out25

Reparar em nós próprios


In.pata

Já repararam que parece sempre difícil responder a perguntas sobre nós próprios?

Nunca percebi bem o que se passava. Somos capazes de responder sobre os gostos dos nossos amigos e as manias dos nossos familiares. Mas quando se trata de nós — com quem convivemos 24 horas por dia, desde que nascemos — dá-nos uma branca, como se fosse a primeira vez que reparamos em nós.

Um dia um amigo contou-me uma dessas atividades de team building que estão na moda para aproximar os colegas. A ideia era simples: partilhar um hábito inconsciente. Para ele, foi relativamente fácil. Para mim, não tanto — fiquei dias a pensar num gesto pouco lógico.

Agora já consigo apresentar dois.
O primeiro: sempre que faço algo em que não utilizo a visão — como prender o cabelo — fecho os olhos. Talvez seja a forma de o meu cérebro dizer: “se não vais usar a visão, mais vale ter os olhos fechados”.

O segundo é mais difícil de explicar. Sempre que estou concentrada a aprender algo novo — algo que envolva fazer ligações entre vários assuntos — levanto a mão, mais ou menos à altura da cabeça, e começo a mexer os dedos como se tocasse piano. Se sei tocar piano? Não, nunca soube. No entanto, acho os movimentos bastante interessantes, graciosos. É como se estivesse a alinhar os diferentes pensamentos, a criar uma melodia.

Talvez não seja suposto ter sempre uma resposta sobre nós. Talvez a resposta mude ao longo do tempo.
Mas acho que vale sempre a pena tentar perceber como funcionamos melhor, que gestos nos acompanham discretamente, como aprendemos.
Não para uma atividade de team building, mas para sabermos guiar-nos um pouco melhor pelas escolhas que fazemos.

16
Out25

Croquetices


In.pata

 

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O Croquete achou que não estava a ter a atenção que merecia neste espaço.
Então decidiu que as últimas semanas seriam focadas nele.

Há duas semanas o Croquete — sempre esfomeado por natureza — deixou de comer.
E começou a ficar mais calmo.
Quem tem filhos sabe perfeitamente o que isto quer dizer.
Nunca é um bom sinal.

Quando saí do trabalho e ele ainda não tinha comido, decidi que era melhor levá-lo logo ao veterinário.

Dado o histórico dele de comer coisas que não são propriamente nutritivas, quando cheguei ao hospital avisei logo que suspeitava que ele pudesse ter comido um elástico de cabelo.

Para perceber melhor o que se passava, o Croquete teve de fazer uma ecografia, o que implica ser anestesiado.
No caso dele — como tentei avisar — uma boa anestesia.
Quando regressei depois dos exames estarem concluídos, o veterinário — que inicialmente não acreditou em mim — estava com aquela expressão de quem está prestes a admitir que se enganou e deu-me razão.

A ecografia revelou que o Croquete não ia ser pai.
O que se passava era uma inflamação no intestino.
Ainda não se descobriu ao certo o que a causou, mas, devido à aversão que ele tem a veterinários, não dá para fazer grandes exames sem lhe causar muito stress.

Assim, o tratamento consiste em bastante descanso, mimos e, claro, dar-lhe toda a atenção que ele exige.

16
Set25

A saga pela imagem perfeita


In.pata

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O que aconteceu foi, mais ou menos, o seguinte:

Pedi ao ChatGPT para gerar uma vinheta para um dos meus textos. Eu adorei a imagem criada: a simplicidade, o desenho quase de uma criança. Só que atingi o limite, então ficou por aí.

Tentei que o chat me descrevesse a imagem para conseguir criar outras imagens noutra IA. E é aqui que as coisas complicam… Tentei várias, não resultaram. Até chegar ao Dall-e.

Ajustei o estilo e escrevi uma descrição dada pelo chat, pormenorizada por mim. Achando que estava bastante boa e ia conseguir o que queria. Enganei-me redondamente.

Ele não chegou nem perto do estilo: demasiado complexo, demasiado colorido, demasiado simples. Uma missão impossível.


 

A rota do improviso

Ao alterar os estilos para ver se ele chegava lá, encontrei o estilo sticker. Bem bonito, não era o que queria, mas era capaz de resultar. E fui por aí.

Como não estava para gastar mais paciência com isto das explicações, decidi ir ao Paint para tentar apagar o melhor possível o fundo. Descobri a nova função de retirar o fundo do Paint — uma maravilha, diga-se.

Só que, ao remover o fundo, acabou por retirar mais alguns pormenores. Então lá fui eu copiar a imagem, retirar o fundo e colar por cima os pormenores que ele apagava. Bastante trabalho, mas fica bem feito. Como se costuma dizer: se queres algo bem feito, faz tu.


 

A surpresa do Copilot

Durante este trabalho de copy-paste, tropecei no Copilot e na função gerar imagem. Pensei: “porque não? Ainda me surpreende.”

E surpreendeu! Com poucas palavras — “nuvem rosa num pôr de sol dourado” — criou algo simples e bonito, tipo sticker. Às vezes, a beleza está mesmo na simplicidade.


 

Moral da história

O Paint pode não criar imagens super detalhadas e realistas, mas faz um bom trabalho sem teres de escrever uma dissertação sobre a tua ideia. E isso compensa bastante a falta de grandiosidade da imagem.

08
Set25

Está calor, não está?


In.pata

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Há algum tempo, Ricardo Araújo Pereira contou um acontecimento insólito numa bomba de gasolina.
Enquanto estava a pagar, a jovem da caixa comentou que ele cheirava bem.

Mais recentemente, aconteceu algo semelhante comigo. Enquanto fazia o pagamento, também numa bomba de gasolina, o jovem da caixa disse que não tinha moedas pequenas e arredondou o troco para 3€, fazendo-me um pequeno desconto.

Embora sejam um pouco diferentes, ambos os cenários aconteceram porque havia uma pessoa a atender.
Com uma máquina, ou uma IA, nada disto seria possível.

 


Na realidade, até com humanos está a ficar raro acontecer.
Já repararam que agora quase não existem estas conversas aleatórias?

Quer dizer, comentários mais comuns como o tempo ou o tamanho da fila.
A chamada conversa de circunstância. Sem nenhum propósito, para além de preencher o silêncio.

 


Vou ser honesta: nunca gostei muito dela, por dois motivos principais.

Primeiro, normalmente essa conversa era feita pela minha mãe — que tem bastante jeito, diga-se. Isto fazia com que eu passasse muito tempo à espera para poder voltar para casa. Para uma criança, era demasiado tempo.

Segundo, porque não via utilidade. Sou aquilo a que as pessoas chamam pragmática.
Não sei se a classificação está certa, mas gosto de ir direta ao assunto.
O que facilmente é confundido com falta de interesse ou preocupação.

 


Pertenço àquele grupo que, quando faz uma chamada, começa com um “olá” e passa diretamente ao assunto.
Sei que ficava bem um “como estás”, mas tenho um problema e quero resolvê-lo.
Não há tempo para conversa de chacha.

 


Acho que isto não é devido a falta de interesse, mas ao ritmo que a sociedade nos impõe.
Não podemos “perder tempo” com algo que não vai levar a lado nenhum.

Então saltamos a publicidade e passamos para o vídeo.

Vivemos com esta ansiedade de fazer acontecer, como uma criança impaciente que espera a conversa da mãe acabar para poder ir brincar outra vez.

 


A questão é que agora, já nem os mais velhos — que tinham este dom da conversa fiada — fazem uso dela.
Quantas vezes já viram pessoas com mais de 50 anos a meter conversa na fila do supermercado?

A mim já não me acontece há algum tempo, a não ser que suba um pouco mais a faixa etária e a pessoa não saiba usar o telemóvel.

 


Talvez seja só porque este tipo de conversa, mesmo quando iniciada por nós, é desconfortante.
Afinal, ela serve de quebra-gelo, não podia ser confortável.

E ninguém está assim tão interessado no tempo.
Portanto, a única deixa viável é mesmo o tamanho da fila.

Essa sim interessa: está longa, demorada e obriga-me a iniciar uma interação que não quero ter.

 


A verdade é que sempre houve alguma coisa para proteger quem não queria conversar: um jornal, um cigarro, uns fones.
O telemóvel só veio tornar as coisas mais fáceis, não é ele o vilão.

Simplesmente facilitou demasiado as coisas, ao ponto de já não ser, de todo, necessário falar com o vizinho.


Continuo a achar desnecessária, a conversa de circunstância.
Mas, quando a bateria acaba, dava jeito.

Ou então, simplesmente para conhecer novas pessoas.
Para sair da nossa bolha social.
Para desenvolver competências de comunicação e evitar aquela ansiedade — que até certo ponto é normal — de fazer chamadas e falar em público.

 


Já ouvi várias histórias de amor que começaram com uma conversa sobre o tempo.
O que já vos aconteceu por terem decidido falar sobre como está calor?

01
Set25

Consegui acabar de ler um livro


In.pata

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Após bastante tempo, várias tentativas malsucedidas e uma breve desistência, venho partilhar a minha mais recente conquista: consegui acabar de ler um livro. Sinto que abri caminho para voltar à minha meta de leitura e diminuir a pilha de livros por ler.

Já aqui tinha falado sobre como o último livro me fez parar de ler e sobre ter começado a ler um de que gostava, mas não conseguia acabar. Há cerca de um mês, decidi voltar a tentar ler. Como estava a gostar muito, apostei numa leitura completa. Foi uma excelente decisão.

O livro de que falo é da autora Bella Mackie, Como matar a tua família. A personagem principal, a Grace, tem um humor de que eu gostei bastante. Dava-me prazer ler o livro e os seus comentários sarcásticos. É aquela anti-heroína por quem se torce um bocado.

Este não foi um livro normal, li-o quase como se fosse uma investigadora à procura de todas as pistas sobre quem morreu e, sobretudo, como foi parar à prisão.

Criei um quadro mental com todos os membros da família, fui organizando as mortes conforme ia lendo, acrescentando pormenores, criando teorias. Será que foi esta pessoa que morreu? Será que ela assumiu o crime de outra pessoa? Estranho que a pessoa que se sentou perto dela tenha sido mencionada, apesar de parecer insignificante. Hm… a colega de cela é um pouco suspeita.

Reler parte do livro foi bastante interessante porque me permitiu apanhar pequenas referências que tinham escapado por falta de contexto. O facto de já saber parte da história não foi um problema. Voltei a rir dos comentários, quis anotar os pormenores. Foi quase como pegar num livro novo.

Sem dúvida, foi dos livros que mais amei ler. Era capaz de o reler já, mas tenho muitos livros em fila de espera — MESMO muitos, acreditem.


[Atenção: daqui para a frente pode haver pistas mais concretas sobre o final. E, como a Grace, não prometo que sejam todas fiáveis.]


No entanto, o final não correspondeu às minhas expetativas. Adorei o livro todo, menos o final. Quando falo de expetativas, não quero dizer que tinha um final em mente, mas esperava algo ao estilo da Grace — com uma boa dose de humor. O que saiu foi… uma boa dose de karma. Coisa em que não acredito, como a Grace.

É difícil de explicar qual foi o problema. É um final inesperado. Demasiado realista. Algo tão banal que não parece um final digno de um livro. Fiquei um pouco desiludida por, depois de uma jornada épica, o final ser tão pouco elaborado. Deixa-nos com muitas questões por responder, não sei bem o que é feito da Grace.

Casou? Revoltou-se? Tentou matar mais alguém? Ou será que simplesmente aceitou o destino e seguiu com a sua vida? Quase dá para escrever um novo livro com tantas questões em aberto.

Enfim, é um livro que recomendo bastante. Leiam com calma, apontem teorias, apreciem os diálogos da Grace. Vão percebendo se as vossas teorias estão corretas, ajustando de acordo com as novas informações. E anotem! Vai ser muito bom perceber o percurso do vosso pensamento ao longo do livro. A Grace deixa-nos um pouco confusos com as suas pistas que nem sempre são fiáveis.

Uma pequena pista para quem decidir ler: não acreditem em coincidências. A Grace não acredita, mas baixou as armas. Não prestou atenção à maior coincidência de todas e perdeu bastante com isso.


Será que conseguem fazer melhor do que ela?

17
Ago25

Dia do Gato Preto (ou melhor, Dia do Croquete)


In.pata

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Hoje, 17 de agosto, é dia de festejar os gatos pretos — a sua beleza e personalidade — e de combater o preconceito.
O Croquete, claro, diz que é o dia dele. E eu não o vou contrariar.

Os gatos pretos têm um ar especial. Desde cedo aprendi a admirar a mistura de elegância e o ar de superioridade deles — que parece ser mais notável no caso dos gatos pretos.
Mas voltando ao Croquete, decidi registar este dia apresentando alguns factos sobre ele:

1) Não fui eu quem escolheu o nome.
No início não gostei do nome, mas sou obrigada a admitir que o nome encaixa na perfeição. O Croquete adora... croquetes. Por ele, estava sempre a comer.

2) Os saltos não correm sempre bem.
O Croquete já se esbardalhou umas quantas vezes, mas recupera logo a compostura. Como se tivesse tudo planeado, incluindo a queda.

3) Ele é que sabe onde dorme.
Isto tanto pode significar um cantinho da cama, quase a cair ao chão, como metade da cama. Às vezes é a almofada fofa, outras o meu ombro. Mas nunca a cama que lhe comprei.

4) Ele é que sabe quando eu estou com frio.
Passei o inverno inteiro a tentar ensiná-lo a dormir em cima dos meus pés. Mas é no verão que realmente preciso que ele me aqueça.

5) Pesa mais de 4kg e adora deitar-se em cima da minha barriga.
Ainda não sei se é demonstração de confiança ou tentativa subtil de me sufocar. Temo descobrir demasiado tarde.

6) O Croquete é poliglota.
Sabe felinês fluente e rosnar como um cão. Usa-o nos momentos mais teatrais, como quando lhe tiro o brinquedo para ele acalmar um pouco.

7) Adora a transportadora.
Não é preciso uma viagem para ele visitar o interior da sua casa de férias. Ela serve como uma pausa do mundo.

8) Os brinquedos dele têm de ser super resistentes.
Quando digo super resistentes quer dizer que têm de resistir aos dentes de um cão para terem alguma hipótese contra o Croquete.

9) Todos os dias acorda às 6h.
Segundo relatos, primeiro mia para me acordar e, quando percebe que não vai resultar, passa ao ataque dos pés. Para ele, horários de refeições não se negoceiam.

10) Adora passear objetos.
Desde que me lembro que o Croquete tem o hábito de pegar coisas com a boca — como uma carta ou um lápis — e leva-las de um lado para o outro. Às vezes é difícil encontrar as coisas.



Espero que este dia, no futuro, sirva apenas para festejar estes felinos adoráveis.
Posso garantir que o Croquete não trouxe nenhum azar para a minha vida, apenas uma boa dose de risos.

12
Ago25

Não é o Dia da Mãe… mas podia ser


In.pata

Entre leis, polémicas e opiniões duvidosas, ser mãe em Portugal continua a ser um percurso de resistência.

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Ultimamente é impossível não pensar em grávidas ou mães.

São tantas as notícias que parece que estamos a discutir sobre parentalidade e não sobre leis do trabalho.
A mais polémica de todas centra-se na questão do direito de redução de carga horária para mães que amamentam.

Primeiro, o Parlamento discutiu sobre o momento em que passava a ser exigido um comprovativo. Atualmente, é a partir do ano, e pondera-se passar a exigir desde o retorno ao trabalho. Isto porque, segundo os defensores desta lei, as mães portuguesas usufruem deste direito mas não amamentam. O que até pode ser verdade, dado que, no primeiro ano, é possível reduzir duas horas diárias independentemente de ser ou não lactante. Mas é a própria lei que abre essa brecha. Portanto, não entendo de que se estão a queixar.

Depois veio aquilo que eu considero uma bomba. Eu nem sei por onde começar… A ex-assessora da ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social sugeriu que quem amamenta para além dos dois anos não é uma boa mãe e que a Comissão de Proteção de Crianças e Jovens (CPCJ) deve atuar.
Ou seja, ainda bem que ela é ex-assessora, porque amamentar para além dos dois anos está a ser considerado mau e até crime. Isto quando a OMS, psicólogos e vários estudos apontam para os benefícios da alimentação exclusiva de leite materno até aos seis meses, complementada até, pelo menos, aos dois anos, e o término ocorrer quando a mãe e a criança assim o entenderem.

Mas, voltando ao que ela disse, fiquei confusa. Na mesma frase, fala de amamentação após os dois anos e de fraude. Que fraude? Não amamentar e usufruir do direito? Se assim é, porque estamos a discutir amamentação depois dos dois anos? Não percebi se ela acha que se amamenta ou não.

Depois disto, vem o pediatra Gonçalo Cordeiro Ferreira dizer que amamentar além dos dois anos é dar migalhas no tempo das mães para estar com os filhos. Até aqui ele estava a ir bem. Concordo: não são duas horas que vão ser tempo suficiente para os filhos. Mas, numa sociedade que provoca a necessidade de ambos os progenitores trabalharem, duas horas é um bom começo.

Depois é que ele estraga tudo, afirmando que o leite materno não tem valor nutricional e cria dificuldade de separação; e que duvida daquelas 6% das mães que dizem que amamentam depois dos dois anos. Uma criança só tem medo da separação quando o vínculo não é seguro. E adivinhem o que promove a amamentação? Isso mesmo: um vínculo profundo com a mãe.

Para terminar com chave de ouro, há mais uma mãe que terá de passar por estes problemas. A começar com o parto da criança, que foi numa rua com o apoio dos pais da mãe. Isto porque o SNS24 sugeriu que fosse para o hospital no seu próprio carro, o 112 ter demorado a atender a chamada e depois ter decidido que os pais da jovem mãe deviam saber falar em inglês.

Enfim, está cada vez mais difícil ser mãe em Portugal. Começa logo no parto, que raramente é numa maternidade e exige conhecimentos de inglês, e continua com uma crítica à qualidade do leite que produz.
Eu continuo com a mesma dúvida: as mães em Portugal afinal amamentam ou não?

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