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Entre Palavras e Patas

Entre Palavras e Patas: ideias que me acordam de madrugada, pensamentos no trânsito e observações que não saem da cabeça. Histórias tortas, café, reflexões e um gato que manda nisto. Bem-vindo!

23
Out25

Reparar em nós próprios


In.pata

Já repararam que parece sempre difícil responder a perguntas sobre nós próprios?

Nunca percebi bem o que se passava. Somos capazes de responder sobre os gostos dos nossos amigos e as manias dos nossos familiares. Mas quando se trata de nós — com quem convivemos 24 horas por dia, desde que nascemos — dá-nos uma branca, como se fosse a primeira vez que reparamos em nós.

Um dia um amigo contou-me uma dessas atividades de team building que estão na moda para aproximar os colegas. A ideia era simples: partilhar um hábito inconsciente. Para ele, foi relativamente fácil. Para mim, não tanto — fiquei dias a pensar num gesto pouco lógico.

Agora já consigo apresentar dois.
O primeiro: sempre que faço algo em que não utilizo a visão — como prender o cabelo — fecho os olhos. Talvez seja a forma de o meu cérebro dizer: “se não vais usar a visão, mais vale ter os olhos fechados”.

O segundo é mais difícil de explicar. Sempre que estou concentrada a aprender algo novo — algo que envolva fazer ligações entre vários assuntos — levanto a mão, mais ou menos à altura da cabeça, e começo a mexer os dedos como se tocasse piano. Se sei tocar piano? Não, nunca soube. No entanto, acho os movimentos bastante interessantes, graciosos. É como se estivesse a alinhar os diferentes pensamentos, a criar uma melodia.

Talvez não seja suposto ter sempre uma resposta sobre nós. Talvez a resposta mude ao longo do tempo.
Mas acho que vale sempre a pena tentar perceber como funcionamos melhor, que gestos nos acompanham discretamente, como aprendemos.
Não para uma atividade de team building, mas para sabermos guiar-nos um pouco melhor pelas escolhas que fazemos.

08
Jul25

Claro que és!


In.pata

Design sem nome (1).png

Vocês sabiam que vários dos nomes mais bonitos, segundo estudos de Birmingham, têm origem grega?

É quase como se as pessoas quisessem dar aos filhos nomes não só bonitos, mas com uma mensagem por trás. Nomes que vêm com legenda — não a oficial, mas aquela que só o tempo e a vida sabem contar.

Curiosamente, ou não, os nomes William, George e Louie estão na lista, tal como Charlie, a versão masculina de Charlotte. Entendem onde eu quero chegar… Estes nomes simbolizam a tradição, estabilidade, história.

Gosto de acreditar que os nomes já escrevem parte da nossa história, que refletem traços de personalidade — mais aventureiros, introspetivos, corajosos. Seja por superstição, expectativas ou uma procura seletiva de confirmações.

E não é só nos nomes — com os signos acontece a mesma dança entre crença, expectativa e confirmação. Quem nunca leu o horóscopo e pensou: e não é que faz sentido? Como se o dia, local, posição do sol e da lua (ou o nome escolhido pela nossa avó) indicassem o caminho que vamos percorrer.

Parece que estamos todos à procura de um significado, de um mapa que nos permita interpretar as pessoas. Tal como, quando estamos a caminhar à noite e vemos alguém na rua. Instintivamente, o nosso cérebro diz: passa para o outro lado da rua! É a nossa mente a tentar dar sentido, segurança, um padrão mesmo onde não sabemos bem o que esperar.

Eu gosto de brincar com estas estratégias da nossa mente. De concordar quando alguém diz “coisas de escorpião”.

— Claro que és escorpião! Estava mesmo a pensar que essa intensidade disfarçada de ironia, essa opinião com ar de provocação elegante… tão típicos de um escorpião.

No fundo, o que queremos é acreditar que não somos meros acidentes do acaso. Que somos escritores e leitores da nossa própria narrativa, às vezes ao mesmo tempo.

Adoro e invejo a capacidade que algumas pessoas têm de fazer isto com naturalidade. É como se os plot twists da vida fossem apenas o escritor a pensar “falta alguma ação” ou “o protagonista não encaixa neste trabalho, vamos despedi-lo”. Nestes momentos, em que o enredo se impõe com tal força, gostava de conseguir manter a leveza e não deixar a dúvida instalar-se.

Eu sou mais de ficar a rever capítulos passados, tentar perceber o que escrevi que me trouxe até aqui. Tenho aprendido, talvez mais devagar do que gostaria, que até o guião mais riscado pode ter correções. Que a tinta seca pode ceder a um novo traço. Que sou a autora, mesmo que às vezes esqueça.

Somos revisores do nosso enredo. E, mesmo que esqueçamos, há sempre aquela voz:
“Este parágrafo podia ser mais coerente.”
Ou, com coragem:
“Esta vida podia ser mais minha.”

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