O meu cérebro é um enorme espaço escuro
In.pata
O meu cérebro é um enorme espaço escuro — e durante muito tempo achei que eram todos assim.
Achei que todos estavam a exagerar quando diziam que as personagens do filme não eram como as tinham imaginado — afinal, elas conseguiam mesmo visualizar a pessoa enquanto liam.
Algumas pessoas — a grande maioria, pelo que percebi — conseguem criar o filme na cabeça, imaginar aquilo que estão a ler; enquanto eu apenas ouço a narração, elas veem a mesa do banquete, a expressão da personagem, o espaço que a rodeia.
Isto a que me refiro — a incapacidade de ter uma imagem na mente, às vezes algo tão simples como o rosto de alguém com quem se convive — tem um nome: afantasia.
O nome é bonito; a vida… tem menos fantasia.
Querem saber se também têm afantasia?
Um teste simples passa por imaginar um limão numa mesa.
Se forem como eu, conseguem pensar no limão e na mesa, mas apenas como ideias.
Não vai haver uma imagem a acompanhar, apesar de poderem dizer que o limão é amarelo e a mesa branca.
O que acontece é que o cérebro usa as áreas ligadas à memória e à linguagem, mas não ativa as responsáveis por criar as imagens mentais.
Essas áreas ainda funcionam — ajudam-nos a reconhecer rostos, orientar-nos e ler expressões.
É como um projetor de cinema que funciona na perfeição, mas cuja lâmpada fundiu.
O mecanismo trabalha; a imagem é que nunca chega ao ecrã.
Talvez por isso goste tanto de Jane Austen, Sally Rooney e Sigrid Nunez, bem como de livros de investigação.
Por ver o mundo através das palavras — e não de imagens.
