![Imagem WhatsApp 2025-09-08 às 20.35.36_7edead08.j]()
Há algum tempo, Ricardo Araújo Pereira contou um acontecimento insólito numa bomba de gasolina.
Enquanto estava a pagar, a jovem da caixa comentou que ele cheirava bem.
Mais recentemente, aconteceu algo semelhante comigo. Enquanto fazia o pagamento, também numa bomba de gasolina, o jovem da caixa disse que não tinha moedas pequenas e arredondou o troco para 3€, fazendo-me um pequeno desconto.
Embora sejam um pouco diferentes, ambos os cenários aconteceram porque havia uma pessoa a atender.
Com uma máquina, ou uma IA, nada disto seria possível.
Na realidade, até com humanos está a ficar raro acontecer.
Já repararam que agora quase não existem estas conversas aleatórias?
Quer dizer, comentários mais comuns como o tempo ou o tamanho da fila.
A chamada conversa de circunstância. Sem nenhum propósito, para além de preencher o silêncio.
Vou ser honesta: nunca gostei muito dela, por dois motivos principais.
Primeiro, normalmente essa conversa era feita pela minha mãe — que tem bastante jeito, diga-se. Isto fazia com que eu passasse muito tempo à espera para poder voltar para casa. Para uma criança, era demasiado tempo.
Segundo, porque não via utilidade. Sou aquilo a que as pessoas chamam pragmática.
Não sei se a classificação está certa, mas gosto de ir direta ao assunto.
O que facilmente é confundido com falta de interesse ou preocupação.
Pertenço àquele grupo que, quando faz uma chamada, começa com um “olá” e passa diretamente ao assunto.
Sei que ficava bem um “como estás”, mas tenho um problema e quero resolvê-lo.
Não há tempo para conversa de chacha.
Acho que isto não é devido a falta de interesse, mas ao ritmo que a sociedade nos impõe.
Não podemos “perder tempo” com algo que não vai levar a lado nenhum.
Então saltamos a publicidade e passamos para o vídeo.
Vivemos com esta ansiedade de fazer acontecer, como uma criança impaciente que espera a conversa da mãe acabar para poder ir brincar outra vez.
A questão é que agora, já nem os mais velhos — que tinham este dom da conversa fiada — fazem uso dela.
Quantas vezes já viram pessoas com mais de 50 anos a meter conversa na fila do supermercado?
A mim já não me acontece há algum tempo, a não ser que suba um pouco mais a faixa etária e a pessoa não saiba usar o telemóvel.
Talvez seja só porque este tipo de conversa, mesmo quando iniciada por nós, é desconfortante.
Afinal, ela serve de quebra-gelo, não podia ser confortável.
E ninguém está assim tão interessado no tempo.
Portanto, a única deixa viável é mesmo o tamanho da fila.
Essa sim interessa: está longa, demorada e obriga-me a iniciar uma interação que não quero ter.
A verdade é que sempre houve alguma coisa para proteger quem não queria conversar: um jornal, um cigarro, uns fones.
O telemóvel só veio tornar as coisas mais fáceis, não é ele o vilão.
Simplesmente facilitou demasiado as coisas, ao ponto de já não ser, de todo, necessário falar com o vizinho.
Continuo a achar desnecessária, a conversa de circunstância.
Mas, quando a bateria acaba, dava jeito.
Ou então, simplesmente para conhecer novas pessoas.
Para sair da nossa bolha social.
Para desenvolver competências de comunicação e evitar aquela ansiedade — que até certo ponto é normal — de fazer chamadas e falar em público.
Já ouvi várias histórias de amor que começaram com uma conversa sobre o tempo.
O que já vos aconteceu por terem decidido falar sobre como está calor?